ST. PETER'S INTERNATIONAL SCHOOL BLOG

Desde a creche até à faculdade.

Aprendizagem

Brincar é descobrir-se a si próprio e ao mundo

importancia de brincar

Risco, medo e excitação são necessários

Nas últimas décadas, passámos da quase total liberdade de brincar na rua com o mínimo de supervisão para obsessivos padrões de comportamento parental super protetores e mesmo castradores de um saudável desenvolvimento físico, psicológico e mental. Entre acautelar riscos e permitir que as crianças se aventurem no desconhecido, descobrindo os seus próprios limites, os pais nem sempre sabem como agir. Estudos recentes abrem amplas janelas sobre uma paisagem mais liberal e permissiva, onde se entende a experimentação do risco, do medo e da excitação como necessárias à brincadeira, ferramenta de desenvolvimento e crescimento primordial, como bem entendemos no nosso colégio.

Oportunidade de correr riscos

Ao contrário do que sempre aconteceu, hoje, a brincadeira é supervisionada por adultos, sejam pais ou educadores, seja dentro ou fora da escola. As crianças brincam ao som de recomendações e receios que incitam a que desacelerem, não subam tão alto, não se aventurem para longe… e que acabam por impedir a liberdade natural de experimentar, a curiosidade de perceber se são capazes de ir mais longe, a intrínseca necessidade de testar os limites, mesmo perante situações que amedrontam, e de enfrentar o desconhecido. Brincar é o mais produtivo ensaio-geral da vida adulta e restringir a brincadeira em ambiente exterior é comprometer para sempre a autoconfiança e a capacidade individual de tomar decisões concertadas. Brincar ao ar livre, explorar o bairro com os amigos, andar de bicicleta todos os dias até um pouco mais longe, subir a árvores cada vez mais altas são atividades saudáveis que se têm vindo a perder na neurótica cápsula de proteção parental. Evidências científicas provam que a brincadeira ao ar livre promove a atividade física, ensina a gerir os riscos, desenvolve capacidades sociais, resiliência e confiança, em si mesmo e no grupo. Cada criança, intuitivamente, e com base na experiência que vai adquirindo, aprende quais são os seus próprios limites, descobre as suas capacidades físicas e define quais os desafios que está ou não disposta a enfrentar. Isto é crescer. Mais importante ainda, é crescer ao ritmo de cada um, sem alertas de aviso que podem servir apenas para incutir o medo e baixar a autoestima em crianças menos aventureiras, ou a incentivar excessos nas mais temerárias, que aproveitarão a primeira oportunidade para arriscar ainda mais. Basta observar um grupo de crianças a brincar, para perceber que há equilíbrios e dinâmicas que acabam por ser guias orientadoras. Por norma, qualquer criança acaba por descobrir qual o seu patamar, aquele que lhe fornece a excitação necessária, mas que não chega a assustá-la. Descoberta que é, a todos os níveis, gratificante e estruturante da forma como se capacitará para o muito que está para vir. Para tal, há que lhe ser dado tempo e espaço físico e mental para se conhecer e arriscar.

brincar na infancia

Comportamento sedentário, ansiedade e fobias

Claro que os pais reconhecem a importância de brincadeiras em ambiente exterior e de explorar o desconhecido sem o olhar intimidatório de adultos, e aceitam que as crianças apenas se podem conhecer a si e ao mundo se a descoberta for feita na primeira pessoa, sem adultos a dizer o que e como fazer. Porém, sucumbem sempre ao receio de que os filhos se magoem ou acabem por correr riscos graves e desnecessários. Esse excesso de proteção – o medo de deixar as crianças sem supervisão, poucas horas ou nenhumas de liberdade para brincarem ao ar livre com amigos, e uma vida que acaba confinada a universos de clausura (casas e carros) – não apenas limita horizontes como se reflete em crianças medrosas, com estilos de vida sedentários, a quem qualquer elemento extraordinário suscita ansiedade e potencia fobias. Esta nova realidade tornou-se, mais recentemente, outra grande preocupação dos pais, que começam a perceber nos filhos comportamentos que refletem demasiada timidez, inércia e incapacidade de assumir riscos ou apenas experimentar algo desafiante.

A regra dos 30 segundos

A visão atual, de estudiosos e educadores no terreno, cola-se à necessidade de deixar a criança brincar e partir à descoberta, correndo riscos, avaliando as situações por sua conta e encontrando a sua própria bitola, a sua medida. Uma perspetiva que reformula o sagrado ‘tão seguro quanto possível’, por um mais permissivo ‘tão seguro quanto necessário’. O mesmo é dizer que devemos aceitar que as crianças são capazes – bem mais capazes do que os pais acreditam –, que sabem pensar e avaliar em função das suas próprias limitações, desde que se lhes dê a oportunidade de sozinhas ou em grupo, enfrentarem as situações. Um entendimento que, em todo o mundo, tem levado a experiências piloto, que acabaram por vingar, em que às crianças é dada maior liberdade na hora de brincar. Algumas escolas já perceberam o enorme valor da aprendizagem e autoestima daí resultantes.

Impor demasiados limites ou forçá-los a ir mais além do que conseguem pode ser contraproducente. Aos pais e educadores compete a cedência de tempo e espaço para que cada criança descubra e se aventure, alertando-os para os verdadeiros perigos, como seja atravessar a rua em segurança, e não receando a cada instante apenas pequenos arranhões. Sempre que estiver indeciso sobre se deve ou não interferir numa brincadeira, há uma regra simples: conte até trinta. Na maior parte dos casos, tudo se resolve pelo melhor antes de chegar ao fim da contagem. Ficará surpreendido com a eficácia desta prática e com a capacidade das crianças para resolver situações que pareciam difíceis.

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